Transtornos alimentares e Obesidade

Principais transtornos alimentares

Existem três tipos de Transtornos Alimentares (TA) mais diagnosticados na prática clínica: Anorexia Nervosa (AN), Bulimia Nervosa (BN) e o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP). Estas doenças são psiquiátricas e envolvem múltiplas causas, atingindo todas as raças e classes sociais. Sabe-se que entre todas as doenças psiquiátricas, a Anorexia nervosa é a doença que mais mata, por complicações da desnutrição ou suicídio.

O que é Anorexia Nervosa (AN)?

É um transtorno alimentar, que é classificado nos principais Manuais de Psiquiatria. Estudos mostram que a Anorexia Nervosa é considerada uma condição rara, com prevalência estimada em torno de 0,5 a 1 % em mulheres jovens e em 0,1% de homens, sendo que o início da doença em geral se dá na faixa entre 13 a 25 anos. Esse transtorno é ainda pouco diagnosticado na prática médica e, quanto maior o tempo de doença, maior o risco de morte.

Quais são os principais sintomas da Anorexia Nervosa?

1. Baixo peso corporal para idade e altura: O peso corporal é mantido em pelo menos 15% abaixo do esperado (tanto por perda quanto por falha em ganhar peso no período de crescimento). O Índice de massa corporal de Quetelet (IMC), que auxilia na avaliação do peso, é calculado por meio da relação entre peso e altura [peso (kg ) ] / [ altura (m)]² e tem valor igual ou abaixo de 17, 5.

2. Medo intenso de engordar: Em geral, os indivíduos com anorexia nervosa começam a parar de comer determinados alimentos que consideram calóricos ou acham que engordam, como por exemplo, massas e doces, passando a selecionar cada vez mais a quantidade e qualidade ingerida pelo medo de engordar, até chegar ao ponto de comer apenas uma vez ao dia, saladas verdes, frutas ou uma barra de cereal ou então jejuar por várias horas ou dias (restrição alimentar). Além de comer cada vez menos alimentos, podem utilizar métodos purgativos, como provocar vômitos, usar laxantes ou diuréticos em excesso, tomar remédios ou chás para tirar a fome e/ou realizar muitas horas de exercício com a finalidade de se livrar do que comeram e perder cada vez mais peso.

3. Ausência de menstruação nas mulheres e uma perda da libido em homens: a falta de pelo menos três ciclos menstruais seguidos em mulheres. Em mulheres que ainda não menstruaram pela primeira vez ou que utilizam pílulas anticoncepcionais regularmente ou em homens é necessário avaliar um atraso no desenvolvimento (ausência do crescimento de pêlos no corpo, retardo no desenvolvimento de mamas, genitais e da menarca) ou diminuição da libido e potência sexual (disfunção erétil). Porém esse item está sendo discutido e não será critério diagnóstico nos próximos anos.

4. Visão do corpo distorcida: Ao contrário do que muitos pensam, a anorexia não é falta de apetite, pois os indivíduos com esse transtorno sentem fome na fase inicial da doença, negam essa sensação e a comida pela preocupação com o peso e corpo. Por isso, um dos aspectos mais preocupantes desse distúrbio é o fato das pessoas com AN continuarem a se achar gordas ou sentirem partes do corpo (nádegas, coxas, braços, abdome) gordas mesmo estando magras (distorção da imagem corporal). A visão de si mesma como uma pessoa “gorda”, “nojenta”, “cheia de banha” e o pavor de engordar são fatores que mantém a doença, tornando a alimentação e o peso obsessões e levando algumas pessoas a se olhar várias vezes no espelho, se pesar muitas vezes ao dia, pensar e preparar receitas para os outros e não comer, contar calorias de tudo que come, entre outros.

5. Auto-avaliação em função do peso e corpo: a pessoa com anorexia nervosa passa a acreditar que o único caminho para felicidade e sucesso é a magreza e pensa que quanto mais magra conseguir estar mais valorizada será pelos outros. A influência da cultura e da mídia na insatisfação com o corpo e distúrbios da imagem corporal têm sido muito discutidas atualmente como um dos fatores decisivos dentro desse contexto.

Os portadores de Anorexia Nervosa freqüentemente apresentam outros transtornos psiquiátricos associados, como por exemplo, transtornos do humor (depressão/ transtorno bipolar) e de ansiedade, transtornos de personalidade, auto-mutilação (retirar pêlos do próprio corpo, se cortar com lâminas, entre outros) e abuso de substâncias (uso de álcool e/ ou drogas). Grande parte dos estudos mostra que a depressão maior é o transtorno psiquiátrico mais comum nos TA, podendo levar ao suicídio.

O que é Bulimia Nervosa?

É um transtorno alimentar, que é classificado nos principais Manuais de Psiquiatria É um transtorno psiquiátrico que acomete mulheres jovens (cerca de 1% a 4%) e homens (cerca de 0,1%). A faixa etária de início é em geral entre 15 a 30 anos, podendo iniciar mais tardiamente.

Quais são os principais sintomas da Bulimia Nervosa (BN)?

A Bulimia Nervosa é caracterizada por episódios repetidos de ingestão descontrolada de grandes quantidades de comida num curto período de tempo (episódios de compulsão alimentar ou binge eating), seguidos por tentativas de se livrar dos alimentos que comeu para não engordar, utilizando métodos inadequados (métodos compensatórios) como vômitos (em 95% dos casos), jejuns (12 a 48 horas), laxantes (desde 1 comprimido a 4 caixas), exercícios excessivos (3 a 5 horas/dia) ou diuréticos. Estes episódios de compulsão alimentar não visam saciar uma fome exagerada, mas sim se relacionam a uma série de estados emocionais desconfortáveis (angústias, medos, ansiedade) e situações de estresse. São verdadeiros ataques à comida, “empanturramentos”, nos quais o indivíduo não consegue parar de comer após iniciar, vindo a ingerir num curto período de tempo (máximo de 2 horas) uma quantidade de alimentos muito maior que a maioria das pessoas consumiria em circunstâncias semelhantes. Nesses ataques, os indivíduos dão preferência a alimentos fáceis de engolir e vomitar, geralmente altamente calóricos, podendo ingerir uma média de duas a cinco mil calorias em um único episódio. Também podem comer alimentos frios, estragados e misturar doces com salgados, por não conseguirem controlar o quê e quanto comem durante os ataques.

Com o tempo, aproximadamente 20% dos pacientes obtém o controle voluntário do reflexo do vômito por meio de uma contração abdominal, não mais necessitando forcá-lo mecanicamente, podendo chegar a vomitar 20 vezes ao dia. Em algumas situações, o indivíduo tem uma sensação de descontrole subjetivo, ou seja, comeu pouca quantidade de alimentos mas sente como um exagero, como se não devesse ter comido, e então também utiliza tais métodos.

Os episódios de compulsão e os métodos compensatórios devem ocorrer no mínimo pelo menos duas vezes por semana por três meses para ser considerado um quadro de bulimia nervosa. Diferentemente da AN, a BN não é uma doença facilmente observável pois os pacientes tem um peso normal, em geral não tem falta de menstruação e procuram esconder as compulsões e métodos compensatórios. As alterações físicas são sutis e observáveis apenas por profissionais especializados, podendo ficar escondidas por anos.

Os pacientes com Bulimia Nervosa podem apresentar outros transtornos?

Os pacientes com BN em geral apresentam outros transtornos psiquiátricos associados à impulsividade, como por exemplo compulsões por compras ou sexo e dependência de álcool e/ou drogas. Isto é um complicador pois irá interferir na evolução do tratamento, dificultando a melhora dos sintomas bulímicos.

O que é Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP)?

É um transtorno psiquiátrico que entra na categoria de Transtorno alimentar não especificado. Porém, de acordo com pesquisas atuais, o TCAP será considerado uma categoria diagnóstica específica.

Indivíduos com TCAP ingerem grandes quantidades de comida em um período curto de tempo (máximo de duas horas) e sentem uma falta de controle relacionada ao comer (não conseguem parar de comer quando começam um episódio de compulsão alimentar).

O TCAP começou a ser estudado no final da década de 50, quando Albert Stunkard, médico da Pensilvânia, observou que alguns pacientes obesos apresentavam comportamento semelhante aos pacientes bulímicos, ingerindo grandes quantidades de comida em um curto período de tempo. Porém estes pacientes, não apresentavam comportamentos compensatórios para eliminar o que comeram. A partir daí, surgiram vários outros estudos sobre a relação entre obesidade e um padrão doente de alimentação, que bem mais tarde veio a se chamar Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP).

Todas as pessoas obesas têm TCAP?

Nem todas as pessoas obesas tem TCAP. Por estudos realizados, apenas cerca de 30% de obesos que procuram tratamento para emagrecer tem TCAP.

Porém, em geral, o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica mantido por um longo tempo leva à obesidade severa e intensas complicações físicas. Quase todas as pessoas com compulsão alimentar tem sobrepeso ou obesidade: quanto maior a compulsão alimentar, maior é a gravidade da obesidade.

Indivíduos com compulsão alimentar apresentam uma história longa de dietas e tratamentos para emagrecer sem um resultado satisfatório (voltam a engordar). Sendo assim, sentem-se cada vez mais ansiosos, fracassados e frustrados. O TCAP pode ter um início precoce, geralmente na adolescência ou mais tarde na vida e, geralmente, o uso de dietas restritivas pode ser um desencadeador dos episódios, gerando um ciclo vicioso: quanto mais o indivíduo restringe sua alimentação maior é o episódio de compulsão e a culpa, levando a um maior engajamento em dietas sem prescrição médica. Uma pessoa com este problema não deve fazer dietas rígidas, pois quanto mais restringir a alimentação maior a intensidade da compulsão alimentar.

Um grande problema é que muitos indivíduos com compulsão alimentar passaram por vários médicos e nunca foram diagnosticados, mantendo a doença por muitos anos, sem tratar adequadamente. Outro complicador é que pessoas com TCAP freqüentemente apresentam quadros de depressão e ansiedade associados, que também precisam ser tratados.

Qual a diferença entre o beliscar e o TCAP?

O ato de beliscar é considerado quando o indivíduo come várias vezes durante o dia, entre as refeições, mesmo sem estar com fome.

O TCAP, que é caracterizado por episódios de compulsão alimentar (também chamada binge-eating) são períodos marcados em que o indivíduo come descontroladamente e ininterruptamente, sendo típicos alguns aspectos: comer mais rápido que o normal, comer sem estar fisicamente com fome (pode ocorrer 10 minutos após o almoço), comer sozinho por vergonha da quantidade ingerida, comer até sentir-se empanturrado e sentir angústia e culpa após comer em excesso. Nos episódios de compulsão alimentar (binge eating), a ingestão pode variar desde 500 Kcal até 10.000 Kcal de uma só vez.

Esta doença difere da bulimia nervosa pois as pessoas afetadas não tentam eliminar os alimentos que comeram através de métodos como vômitos, laxantes ou jejuns. Na maioria das vezes, se sentem impotentes e incapazes de controlar o quê e quanto comem e não utilizam métodos de compensação.

Referências Bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorder: text-review- DSM-IV-TR. Washington, DC: 2000
STUNKARD, A.J. A history of binge eating. In: FAIRBURN, C.G.; WILSON, T.G. (Ed). Binge Eating and ists nature, assesment and treatment. London:Guilford, 1993
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS) - Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: descrição clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artmed, 1993

Simone Silva Freitas
(Psicóloga e Coordenadora do CETTAO - Clínica de Estudos e Tratamento de Transtornos Alimentares e Obesidade - do Serviço de Psiquiatria da SCMRJ - Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro)

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